Olhar pelo buraco da fechadura é muito mais emocionante que escancarar a janela. É uma sensação estranha de assistir o que é proibido, de observar quem está do outro lado sem que esse saiba da sua presença. Um esquisito prazer que a maioria dos seres humanos revela cultivar. Alguns, mais conservadores (ou hipócritas), dizem não sentir tal necessidade, que isso é para pessoas que não tem o que fazer, que são desocupados preocupados com a vida alheia. Outros assumem que gostam de saber dos problemas, alegrias e das tristezas do próximo, mesmo que o “irmão” não tenha ciência disso. É um dos tracejos do perfil humano. Genético ou não a ciência ainda não consegue explicar.
Em 1949, Eric Arthur Blair, mais conhecido por seu pseudônimo George Orwell, escreveu um dos mais brilhantes e célebres livros sobre a curiosidade humana. No romance 1984, o autor descreve uma sociedade totalmente coletivista e o seu governo oligárquico. Demonstra ainda como esse sistema político utilizava as mais diversas formas de coerção e repressão contra pessoas que iam de encontro a suas ideias. No livro a história é narrada por Winston Smith, que é funcionário do governo recebendo incumbências de fazer uma excelente propaganda daquele regime. Passado algum tempo ele se revolta, e assim começa uma rebelião contra o sistema que ajudou a erguer, o que resulta em sua prisão e tortura. Interessante neste livro é que o governante da estranha sociedade onde Smith está inserido se chama Big Brother. Ele controla tudo e todos com câmeras espalhadas pela cidade, fazendo assim da comunidade uma prisão onde o chefe maior exerce uma fiscalização sobre os indivíduos.
Em 1999 foi lançado o programa televisivo que iria arrebanhar, anos mais tarde, bilhões de fãs em todo o mundo. O Big Brother, um reality show que se baseia no confinamento de alguns indivíduos dentro de uma casa por três meses sendo vigiados por dezenas de câmeras, explodiu na Holanda e se espalhou rapidamente pelo mundo, chegando a países como Portugal, Estados Unidos, Argentina, França e Rússia. No Brasil o programa teve sua estréia em 2002, e a Rede Globo de televisão é quem comercializa suas edições.
Coincidência ou não o programa de televisão tem muito a ver com o livro de Orwell, que dentro de suas perspectivas tinha o mesmo objetivo: bisbilhotar a vida alheia. O Big brother como programa de entretenimento não tem cunho político, mas o impacto que ele traz dentro das relações sociais é gigantesco. Vemos em cada edição as diversas facetas da sociedade em que estamos inseridos. E como cada personagem representa um perfil social e econômico, é possível verificar a identificação de todo um país dentro da estrutura Big Brother.
O sucesso do programa advém exatamente desta identificação. Percebe-se que o telespectador ao visualizar os personagens do “drama” se vê diante a um espelho, uma imagem que retrata seus sonhos, frustrações, medos e paixões. E como se trata de uma realidade, o indivíduo não se sente sozinho, ele se apega ao personagem e transfere o seu “eu” para dentro da televisão.
Criador do reality show, John De Mol, ex-sócio da Endemol, empresa que veicula e tem os direitos autorais do Big Brother, disse em entrevista à revista Época que seria interessante observar como as pessoas se relacionariam e formariam um grupo dentro do confinamento. Esperava-se que depois de alguns dias a personalidade real das pessoas começasse a aparecer. E foi exatamente o que aconteceu. Isso significou uma atração televisiva extremamente interessante, pois se podia ver o conflito entre o interesse do grupo e o interesse pessoal de cada participante. E a consequência é a profunda identificação do telespectador com o programa. Segundo palavras do próprio Mol “Big brother chega muito perto das pessoas. Como espectador, você está constantemente pensando: ”Qual seria minha atitude diante de uma situação como essa?” Na realidade, você está olhando para si próprio.”
Quem nunca viu o programa? Quem nunca se identificou? Quem nunca votou num participante para que ele saia? Não adianta, mesmo lutando contra os princípios da intelectualidade todos, sem exceção, viram ou verão o famoso BBB. Está no sangue, na genética, entranhado nas características humanas o espírito da curiosidade, para não dizer outra coisa.
Infelizmente.

2 comentários:
Sinceramente eu nunca votei para ngm sair... rsrs... Mas tenho que assumir que ás vezes dou uma "espiada". É absolutamente normal ter a curiosidade de assistir um programa que faz tanto sucesso. Os que se julgam intelectuais, seres superiores, enfim... Talvez não se permitam ter esta curiosidade, por ser um programa extremamente popular, e tudo que é popular em excesso não os agrada. Assistir é normal, o que é lamentável é ver pessoas fazendo do programa o maior evento anual, fazendo campanha para um ou outro participante, gastando dinheiro para votar em quem vai sair ou ficar. O problema é que a maioria dos brasileiros que assistem a este tipo de programa é a mesma maioria que se informa com jornais medíocres como o meia hora e o expresso. Que troca seu voto por uma reforma na praça do seu bairro. Que não exige seus direitos, e não respeita os do próximo... Não irei me prolongar mais no comentário... Mais uma vez quero te dar os parabéns pelo ótimo texto. Mas cuidado! Achei um provérbio chinês que é a sua cara.
“Quem a si próprio elogia, não merece crédito” Você sabe do que estou falando...rsrs
hauahauahuhuhua...
Valeu, meu irmão!
Seus comentários sempre abrilhantam esses textos opacos... Como sempre, você um jornalista e crítico dos mais refinados, fez um boa leitura do que eu quis dizer... Esse seu comentário vale como uma extensão do meu texto...
Abs...
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