
Na pequena e fria cidade de Walheim existiam apenas duas coisas que poderiam se notar à léguas de distancia. Uma delas era o clima tenebroso que pairava sobre os rostos de seus moradores. Todos pareciam viver em um eterno mau humor, cheios de amargura. As fisionomias sempre fechadas impediam qualquer visitante de se aproximar e fazer contato. As meninas emburradas para cima e para baixo, sempre irritadas com alguma coisa. Os meninos com a testa franzina demonstrando insatisfação com a vida. Difícil mesmo era encontrar alguém que desse um sorriso apenas. E não era coisa de adolescente, pelo contrário, todos, sem exceção, respiravam descontentamento, seja com o vizinho, com a prefeitura, com a escola, com o trabalho, ou consigo mesmo. Nunca estavam satisfeitos. Era uma cidade de perfeccionistas que não admitiam nenhum erro se quer. Turistas? Nem pensar. Assim que algum desses, na maioria jovens em busca de aventura nas montanhas geladas do Vale Robusto, se aproximavam, os moradores exalavam aquele péssimo clima, o que repelia qualquer um que tentasse ingressar na linda Walheim.
Apesar dos moradores demonstrarem nenhuma simpatia, a natureza fazia questão de dizer exatamente o contrário. Pequena em tamanho, mas grande em beleza. Cobertas por palmeiras imperiais, as ruas em paralelepípedos clássicos ganhavam um charme a mais quando por elas passavam as amargas donzelas em suas charretes. As casas em estilo colonial, com jardins bem cuidados e floridos preservavam o tom antigo que a cidade gostava de transparecer. Era uma cidade diferente de todas as outras. Onde por fora era linda, com uma paisagem exuberante, mas por dentro estava repleta de brigas, intriga, confrontos entre moradores, disputas por posição social e tudo mais que pudesse destruir os relacionamentos.
A outra coisa que chamava a atenção em Walheim, era um lugar que nem seu nome os moradores gostavam de pronunciar. Todos tinham medo até de passar perto daquele local. Era um pequeno bosque, o bosque das sombras, bem ao final da cidade. Altos muros o cercavam, e nada de belo em sua entrada, pelo contrário, o bosque destoava de toda a cidade. Com uma aparência lúgubre, transmitia sensação desagradável a quem passasse. Os moradores daquela cidade não falavam sobre o bosque das sombras. Era como se não existisse, ou como se a maioria fingisse não existir. Pelas histórias que os antigos contavam, dentro deste local havia algo horripilante, medonho, sinistro. E tudo que tinha de lindo em Walheim, parecia se transformar dentro do bosque. Quem entrasse ali iria se deparar com uma imagem tenebrosa. As ruas eram de barro vermelho, molhado pelas chuvas constantes, o que transformava tudo em lama. As arvores plantadas eram sem folhas, somente galhos. As poucas flores que tinham no local eram negras, estranhamente negras, desabrochadas com um odor fétido. Animais esquisitos povoavam o bosque, cachorros, gatos, e até leopardos haviam ali, mas era um espécie maléfica de bichos. Em seus olhos havia maldade, espanto, pavor. Insetos bem maiores que o normal sobrevoam os lagos tétricos. E o céu parecia mudar sua tonalidade. O azul tornava-se vermelho como fogo, como se fosse uma outra dimensão.
Havia uma cabana dentro do bosque. Em meio a este cenário pavoroso, uma pequena choupana resistia firmemente aos ventos, às tempestades e ao calor intenso que o bosque passava. Mas se existia uma cabana era sinal de que alguém morava neste local. Mas como? Um lugar tenebroso, com um odor desagradável, local onde todos os moradores da linda Walheim procuravam passar a distância, poderia abrigar alguém ali dentro?
To be continue...
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